Este blog foi criado para relatar as situações de assédio moral vivenciadas durante os 21 anos em que atuei como educadora na Prefeitura Municipal de São José do Rio Preto.

Através dele, publicarei documentos e relatos sobre as ações das pessoas que destruíram projetos benéficos para uma comunidade e a minha carreira de funcionária pública.

Neste espaço, também divulgarei informações para que outros trabalhadores possam compreender o que é o assédio moral, como agem os assediadores e como defender-se de suas ações destrutivas.

Se você também sofreu situações de assédio moral, envie o seu relato. Vamos trocar informações e discutir formas de evitar que outros educadores passem por situações semelhantes!

11 de março de 2014

Tribuna Livre na Câmara dos Vereadores



Se eu tivesse mais que dez minutos para usar a Tribuna Livre na Câmara Municipal, eu teria dito tudo isso:


Exmo. Sr. Presidente da Câmara dos Vereadores de São José do Rio Preto, Ver. Paulo Pauléra, em nome de quem saúdo todos os vereadores desta Casa, DD. Senhores Munícipes e funcionários presentes:

Meu nome é Débora Rosemary Malacario. Sou graduada em Pedagogia e Educação Física pela Universidade Estadual de Maringá, no Paraná, estado onde nasci, e escolhi São José do Rio Preto para seguir minha carreira como professora. Vivo nesta cidade desde 1991 e aqui constituí família e criei meus filhos.

Atuei como professora no CEFAM no período de 1992 a 1996 e contribuí para a formação de muitos professores que hoje atuam na nossa rede de ensino, assim como atuei também em cursos de licenciatura em algumas faculdades da região. Ingressei na Prefeitura Municipal de São José do Rio Preto em 1993, classificando-me em 5º lugar em  um concurso público.

Desde a minha admissão, em 04 de abril de 1993, participei de diferentes ações em políticas públicas, começando pela Secretaria Municipal de Esportes e Lazer, no Projeto Criança Esporte, idealizado pelo Competentíssimo Professor Lauro Zanusso, substituindo-o na coordenação das escolinhas esportivas no município, e com ele também contribuí para a elaboração da Lei do Auxílio Atleta, colaborei para a organização de eventos de esportes e lazer como Riopretíades e Infantíades, entre tantos outros, e junto com outros atletas também defendi a cidade de São José do Rio Preto nos jogos regionais.  Apoiei o Fundo Social de Solidariedade na organização de brinquedotecas nas creches AMOR, fui a primeira técnica da primeira equipe de basquete sobre rodas da cidade e também auxiliei a equipe de golbol de pessoas portadoras de deficiência visual.

Transferida para a Secretaria Municipal de Educação, ministrei vários cursos para capacitação de professores na área de Educação Física, quando não havia profissionais desta área atuando na Educação Infantil e tal missão era destinada aos professores com formação em pedagogia.

O programa de capacitação de professores em Educação Física foi denominado “Tempo de Criança” e dele resultou um boletim informativo que recebeu congratulações desta Casa de Leis.

Nas escolas pelas quais atuei como professora, apoiei as equipes gestoras na organização de campeonatos esportivos, atividades de lazer, festas juninas e outros eventos temáticos e até mesmo nas formaturas ou eventos de encerramento do ano letivo.

Em dezembro de 2005, após inscrição em um processo de seleção para diretora substituta, assumi a gestão da Escola Municipal do Parque da Cidadania, posteriormente denominada Escola Municipal Paul Percy Harris. Permaneci nesta escola como diretora até setembro de 2009.

Durante esse período, com o apoio da equipe de professores e funcionários, travamos uma árdua luta para organizar a comunidade escolar, estabelecer um  regimento escolar baseado em acordos com os alunos, pais, corpo docente e administrativo da escola,  construímos  a identidade da escola, organizamos ações para a preservação do patrimônio, implantamos um projeto ecumênico em parceria com os líderes das diversas igrejas que atuavam no bairro, organizamos projetos esportivos e culturais, participamos ativamente dos eventos cívicos do município, edificamos a biblioteca da escola,  cuja meta era o atendimento de toda a comunidade do Parque da Cidadania, enfim, nossa equipe esteve, durante todo aquele período, seriamente empenhada em mudar o quadro de dificuldades que enfrentávamos quando à qualidade de ensino e às dificuldades de aprendizagem resultantes principalmente das condições sociais de nossos alunos.

Falar de todos os projetos realizados na Escola Paul Harris tomaria muito tempo e isto não é necessário, pois a maioria dos senhores já conhece o nosso trabalho há muito tempo. Todos eles estão publicados em vários sites na internet e, aos poucos sendo detalhados no meu blog:

assediomoraleducacao.blogspot.com.br

Porém, uma das razões de minha presença aqui hoje é agradecer pela oportunidade que tive, durante os últimos anos, de ser diretora da Escola Paul Harris. Quero agradecer à comunidade do Parque a Cidadania, pelos alunos, pelos pais, pelos líderes daquela comunidade, pelos professores e funcionários que me proporcionaram grandes vivências e contribuíram para que eu me tornasse uma educadora e uma pessoa mais madura e consciente das minhas responsabilidades e competências.

Quero agradecer também, de uma maneira muito especial, aos rotarianos do Distrito 4480 e até mesmo outros Distritos Rotários do Brasil e do Exterior, que visitaram a escola, apoiaram nossos projetos com grande empenho, na forma de trabalhos voluntários e na doação de recursos, e também a todos os empresários e profissionais que nos ajudaram para que a escola se tornasse um espaço de aprendizagem tão especial quanto foi durante aqueles anos, apesar de todas as dificuldades que ainda enfrentávamos e do longo caminho que ainda tínhamos a percorrer, especialmente quanto ao Indice de Desenvolvimento da Educação (IDEB).

Vários dos senhores, nobres vereadores, também conheceram pessoalmente nossas ações na Escola Paul Harris.

Por todo esse acompanhamento, pelo apoio incondicional, pela credibilidade que nossas ações alcançaram , pela presença verdadeiramente colaboradora de rotarianos, empresários, profissionais liberais e políticos, é que venho a esta casa dar uma satisfação a todos aqueles que confiaram e apoiaram  o nosso trabalho.

A Câmara dos vereadores aprovou, em 10 de agosto de 1999, um requerimento do vereador Carlos de Arnaldo Silva Filho, com votos de congratulações pela iniciativa de criação e publicação do “Boletim Informativo do Projeto Tempo de Criança”, elaborado por mim,  por ser “um boletim moderno, de fácil leitura, de alta qualidadedestaca importantes informações e orientações para profissionais da classe e alunos do ensino fundamental.”

Na sua gestão do Distrito 4480 de Rotary International, o governador Silvio Roberto Ribeiro Lima outorgou, através do Rotary São José do Rio Preto Sul, o título de profissional do ano, pelo trabalho desta professora frente à Escola Municipal Paul Percy Harris.

O Requerimento 0120/2011, de autoria do vereador Nelson Ohno, congratula “A professora Débora Malacario pela homenagem recebida pelo governador rotariano Silvio Roberto Ribeiro Lima, pelo excelente trabalho que realizou durante o período que esteve à frente da direção da EM. Paul Harris e a comunidade do Parque da Cidadania.”

Na Conferência do Distrito 4480 de Rotary, em 2008, o prefeito Edinho Araújo também fez um reconhecimento público pelo trabalho na Escola Paul Harris.

E, na moção 0021/2012, o vereador Pedro Roberto Gomes (PSOL), congratula esta professora “pelo exemplo de cidadania e coragem ao postar no facebook o abandono da Escola Municipal Paul Percy Harris”.

No entanto, senhores, apesar de todo o trabalho presenciado por vocês, apesar dos reconhecimentos públicos tanto desta Casa quanto da governadoria e dos clubes de  Rotary, há uma indicação de que vocês foram ENGANADOS!

Esta professora que hoje vos fala recentemente foi exonerada do serviço público por exercer suas funções de maneira desidiosa! 

A imprensa, alguns dos nobres vereadores e a sociedade continuamente questionaram sobre os motivos da minha demissão. Eu venho a público, por não ter nada a temer ou esconder, para esclarecer os principais motivos, publicados na Portaria nº389, de 07 de março de 2013:

“Quando a coordenadora Juliana Vargas Passarini chegou na escola a professora Débora desautorizava-a, maltratava-a, gritava com ela” (...) “reuniu os alunos na quadra para ficar ‘falando na cabeça dos alunos’ , influenciando os alunos para atrapalhar o trabalho da coordenadora Juliana”

- “Não prestou contas dos recursos financeiros e não registrou a ata da APM.”

- “Camuflar a aproximação e o suposto romance da coordenadora e professora ‘X’ com o aluno ‘Y’, bem como chegou a ameaçar o aluno de reprovação caso ele comentasse ou confirmasse o assunto.”

Os demais detalhes poderão ser encontrados na cópia do documento que está publicado no meu blog. Assim como todos os demais documentos deste processo.

As acusações tiveram como base relatórios manuscritos que foram elaborados por uma comissão constituída pela portaria SME nº50, no ano de 2009, composta por cinco supervisores de ensino. Os relatórios basearam-se nas denúncias da coordenadora pedagógica Juliana Vargas Passarini, que assumiu o cargo na Escola Paul Harris em 30 de julho de 2009 através de concurso público. A experiência anterior da coordenadora era com a Educação Infantil. A convivência dessa coordenadora comigo na função de diretora foi de um pouco mais de UM MÊS, pois saí em férias no início do mês de setembro e, quando retornei, já havia sido afastada da direção da escola e a diretora recém admitida por concurso Marisa Ribeiro havia assumido o cargo.

Portanto,

Com todo o respeito, atrevo-me a perguntar: teriam sido todos os senhores, políticos atuantes por mais de duas décadas, empresários, advogados, educadores, engenheiros, médicos, jornalistas e tantos outros profissionais de grande gabarito, portadores de uma ingenuidade insana, movidos por uma rasa intuição, inexperientes na percepção acerca do caráter e das intenções alheias, a ponto de se deixarem enganar por mim, durante quase 23 anos?

O mesmo pergunto à supervisora de ensino responsável pela  Escola Municipal Paul Percy Harris durante os anos de 2006 a 2009, Vera Lúcia Morais Bechuate: em todas as visitas que a senhora realizou à escola nesses anos, nos seus relatórios, onde estão as observações acerca das irregularidades administrativas na escola? A sua experiência como supervisora não lhe forneceu recursos para perceber os “diversos atos reprováveis durante o período em que a professora Débora atuou como diretora substituta da Escola Municipal Paul Percy Harris”, a ponto de concordar com a sua recondução ao cargo por mais 3 anos consecutivamente?

A senhora supervisora desconhecia os prazos para as prestações de contas? A sra. supervisora desconhecia também que os responsáveis pelo registro da Ata de Constituição da APM e pela prestação de contas são o tesoureiro e o diretor executivo  e não o diretor de escola?

Não lhe ocorreu à mente que as contas da APM nos anos de 2006, 2007 e 2008 haviam sido aprovadas e que, em setembro de 2009, as contas do ano corrente ainda não estariam prontas pelo simples fato de que o prazo era 31 de janeiro do ano subsequente?

Os cidadãos riopretenses, a quem devemos dar satisfação sobre nossos atos como servidores públicos, deverão considerar que a senhora estava despreparada para desempenhar suas funções, por desconhecer a legislação que regulamenta o funcionamento da APM e as orientações da Secretaria Municipal de Finanças, e por isso ACATOU as denúncias da Coordenadora Juliana Vargas Passarini?

E, mesmo em ação conjunta, os cinco supervisores de ensino que constituíram a Comissão de Diligência, não tiveram subsídios a partir de sua formação e da prática profissional, para identificar os erros de avaliação e as denúncias sem fundamento legal de uma jovem e inexperiente coordenadora recém concursada?

Da mesma forma, a professora Stael Maria de Grandi Silva, que assumiu a diretoria executiva da APM por dois anos, desconhecia que, em sua função, era responsável pelo registro da ata de eleição da APM e ainda, juntamente com a tesoureira da associação, eram responsáveis pelos pagamentos e prestações de contas, tendo o dever de conhecer e cumprir os prazos legais?

Ao depor à Comissão de Diligência contra a diretora Débora, em 2009, a sra. pretendia isentar-se de qual responsabilidade?

A senhora Secretária Municipal de Educação, Professora Doutora Telma Antonia Marques Vieira, como chefe da pasta da Educação no município, desconhecia que o diretor de escola, por legislação, não faz parte da diretoria executiva e financeira da APM  e, portanto, não tem responsabilidade direta  na prestação de contas? Foi por ignorância a respeito do Estatuto da APM que a Sra. Secretária acatou como procedentes as acusações da coordenadora pedagógica Juliana, da diretora Marisa, da professora Stael e da comissão de supervisores de ensino?

A segunda importante denúncia da Portaria trata-se de “Camuflar a aproximação e o suposto romance da  professora ‘X’ com o aluno ‘Y’, bem como chegou a ameaçar o aluno de reprovação caso ele comentasse ou confirmasse o assunto.”, devo-lhes dizer em primeiro lugar que, esta que vos fala, “pelo dever geral de cautela, pautar-se-á pela segurança de suas ações de modo a garantir-se de eventuais precipitações acerca dos fatos que não estejam cabalmente apurados e que possam resultar em prejuízo futuro para si ou para terceiros.” (argumento utilizado pela Profa. Dra. Telma Antonia Marques Vieira ao negar o fornecimento de documentos solicitados através de notificação). Ou seja, reservo-me o direito de não citar nomes a respeito de um caso que não foi investigado.

Devemos nos lembrar do caso da Escola Base, de São Paulo, em que educadores foram falsamente acusados de abuso de menores e, ao final do processo, quando foram inocentados, suas vidas pessoais e profissionais estavam completamente destruídas!

Sobre este caso tenho apenas a dizer que não encontrei nenhum indício de que o fato tenha ocorrido, não houve nenhuma testemunha e nenhum dado relevante para qualquer denúncia, que o próprio aluno e sua mãe declararam em documentos posteriores que o fato não aconteceu como descrito pela Comissão de Diligencia e que ASSINARAM SEM LER o documento; que fui viajar em férias dois dias depois de aparecerem os comentários na escola e que não tive oportunidade de acompanhar a situação posteriormente, pois fui afastada da direção da escola.

Apesar disso, a coordenadora Juliana Vargas Passarini, a diretora Marisa Ribeiro, os supervisores de ensino Vera Lúcia Morais Bechuate, João Ernesto Nicoletti, Solange Maria da Silva Pires Álvarez, Sandra Morselli e Ricardo Martins (educadores), os membros da Comissão Processante Rosemeire Rodrigues Costa Macedo (bacharel em direito), Luciana Mansano Mapelli (assistente social) e a própria Secretária Municipal de Educação Telma Marques Vieira (e ainda os secretários de administração que passaram pela pasta neste período, bem como os procuradores do município), tomaram conhecimento do fato na mesma época e em nenhum momento realizaram qualquer denúncia  ou iniciaram qualquer processo de investigação. Pelo contrário, estranhamente, a professora que “supostamente teve um relacionamento amoroso com um aluno”, foi de certa forma “protegida”, ao ser transferida para um Núcleo Esperança, na função de “apoio a projetos pedagógicos”. 

Se todos esse agentes públicos entenderam que não havia necessidade de qualquer investigação ou denúncia, e por isso não tomaram nenhuma atitude em relação à professora envolvida, por que razão fui acusada de camuflar um delito que eles próprios consideraram inexistente e, de forma mais grave, fui condenada à demissão por justa causa? 

Porém, se existiam razões para acreditarem que o delito de fato ocorreu, e ainda assim eles não investigaram e não denunciaram às autoridades competentes, não seriam tais agentes também cúmplices no ato de “camuflar o relacionamento amoroso da professora com o aluno”?

Conclusão: NINGUÉM se preocupou com a possibilidade de um adolescente ter sido "explorado"! O fato só foi utilizado como argumento para a minha demissão!

Senhores, a minha indignação pela forma como os agentes públicos manipulam a vida das pessoas, nas instituições ou nas comunidades, é enorme! Mas não é de hoje: eu poderia lhes falar sobre a estranha coincidência de meu exame médico de admissão ter acusado a doença de chagas, duas vezes, em dois laboratórios indicados pela prefeitura, na ocasião em que fui aprovada em um dos primeiros concursos realizados pela prefeitura de rio preto, enquanto todos os exames realizados em outros laboratórios, feitos de forma particular, durante toda a minha vida, jamais tinham acusado qualquer doença cardíaca, e poderia relatar também as dificuldades que tive para ser contratada, após provar que tais resultados não procediam! (Ainda possuo os laudos!)

Eu poderia falar de todas as coisas que presenciei dentro da prefeitura, desde um certo secretário municipal que pedia dispensa de ponto ao prefeito e usava carro oficial para participar de banca de mestrado, em uma certa cidade do litoral baiano... (tenho cópia dos ofícios!)

Eu poderia falar das pressões que vivi como coordenadora do Projeto Criança-Esporte, ao elaborar a folha de pagamento dos humildes professores contratados pelo auxílio-atleta, quando muitos deles não recebiam o que mereciam por direito, enquanto outros, privilegiados pelas relações políticas, recebiam em dobro e até mesmo suas esposas constavam da folha de pagamento sem nunca terem colocado seus pés em um campo ou quadra esportiva... (o bilhete de ameaça ainda está comigo!)

Eu fui, senhores, uma das primeiras pessoas a manifestar as irregularidades do Auxílio-atleta, cujas investigações estão hoje nas mãos do ministério público. Os jornais da época registraram isso. Porém, a única consequência das minhas denúncias  foi a minha transferência de setor. Fui jogada no mais distante lugar e nas piores condições de trabalho. Nenhum vereador me deu ouvidos. Fui perseguida e ignorada pelos meus próprios colegas funcionários públicos. Minha ficha funcional foi ficando cada vez mais “suja”, pois era colocada à disposição cada vez que manifestava minha indignação diante das atitudes imorais e ilegais dentro do serviço público. Fui ameaçada até mesmo por escrito! E tudo o que estou lhes dizendo pode ser comprovado por documentos!

Em 2013, enfrentei o derradeiro Processo Administrativo. Aquele mesmo, cuja diligência se iniciou em 2009, quando a coordenadora protegida da Sra. Secretária armou sua rede de intrigas para justificar sua dificuldade de dar conta da escola que assumiu, cujo parecer do procurador geral do município estranhamente desapareceu do processo... aquelas mesmas acusações, os mesmos documentos manuscritos aos garranchos pelos supervisores de ensino, cheios de erros de gramática, cujas frases muitas vezes sequer tinham conexão com o assunto a ser investigado, sim, esses mesmos documentos serviram de base para a Portaria 389/2013, que instaurou o processo administrativo que resultou na minha exoneração.

Mas, desta vez, porém, o motivo foi outro. Não se tratava de uma Secretária de Educação querendo proteger a sua jovem coordenadora, esposa do amigo do marido, nem de um grupo de supervisores ávidos por dar uma lição em uma professora questionadora , "topetuda", "que pensa que é 'dona' do Parque da Cidadania", como disse um deles, ou quem sabe, querendo eles também brincar de detetive-delegado-juiz. Sim, porque ACATAR denúncias que de cara, pela própria legislação, já eram improcedentes, ou acusar alguém de camuflar um crime sem investigar o próprio crime e beneficiar o suposto "criminoso", só pode ser brincadeira!

Desta vez, em 2013, a causa era mais profunda,  senhores. Havia a fúria de um prefeito que se viu exposto na mídia por causa de uma simples professora de Educação Física, que mostrava o estado deplorável da escola onde trabalhava, uma educadora que abriu ao povo riopretense as mazelas da nossa educação abandonada.

E para piorar, um prefeito que recebeu uma moção de repúdio da câmara dos vereadores, por punir a  professora que publicou um desabafo por suas condições de trabalho, quando a atitude mais digna seria a de imediatamente exigir providências aos setores responsáveis!  Uma moção como não ocorria há mais de 10 anos! E tudo isso, por causa desta "professorazinha" de Educação Física!

De fato, senhores, eu preciso  falar do que aconteceu comigo nesses 22 anos como funcionária pública, particularmente a partir de 2009, de toda perseguição acirrada, das ações de cada diretor e de cada coordenadora que assumiu a Escola Paul Harris, orientados por supervisores e pela própria secretária, para que eu desistisse de lá atuar mesmo como professora, a fim de que eu chegasse a um nível de estresse e descontrole emocional que não me permitisse mais continuar... eu sofri um acidente vascular cerebral dentro da própria escola, senhores, e se não tivesse sido o socorro imediato e preciso, talvez hoje vocês perceberiam as sequelas que carrego mas pouco se notam. Ou quem sabe eu nem estivesse mais aqui.

Eu preciso falar, mas não para que alguma coisa seja feita por mim. Estou aqui para chamar a atenção dos senhores sobre as consequências do que aconteceu para a DEMOCRACIA em São José do Rio Preto, pois sinto que as perdas são irreparáveis! Não respeitar a opinião alheia e o direito de expressão é uma afronta à democracia!

Um processo que se inicia em um ano e que se conclui mais de quatro anos depois, fazendo com que o indiciado sofra por todo esse tempo os questionamentos, as insinuações, a discriminação, a exclusão, a desmoralização, o distanciamento das pessoas, a exposição na mídia, a perda da oportunidade de realizar o seu ideal de trabalho, os seus projetos... e depois ter que aguardar em afastamento, distante dos seus alunos queridos, que são a grande motivação de qualquer educador idealista, vivenciar longas horas, durante meses, de oitivas realizadas pela Comissão Processante... esse grande castigo que recebi, foi à propósito de mostrar a todo o funcionalismo público municipal de São José do Rio Preto, e também à população, O QUE É QUE ACONTECE COM QUEM FALA! EM QUE SE TRANSFORMA A VIDA DE QUEM QUESTIONA OS ATOS DOS PODEROSOS!

Depois disso, senhores, quantos ainda terão coragem de falar sua opinião, de publicar suas indignações, de cobrar pelos seus direitos de cidadão?

Sim,  a democracia em São José do Rio Preto sofreu um grande golpe!

E aqui está o meu apelo: fechem o cerco contra os abusos de autoridade, abram os olhos diante das denúncias de assédio moral, estejam atentos a essas teias de intrigas que se formam em torno daqueles que tentam mostrar o que acontece por detrás dos bastidores, porque quem tem coragem de denunciar está fundamentado na verdade de quem sente na pele o problema! Estejam por perto para acompanhar os procedimentos desses processos. Estamos a repetir a velha postura dos coronéis e de seus capangas. Sim! Há funcionários de carreira se especializando na função de capangas, de leões de chácara, para manter seu status de assessores a cada gestão política! 

Coloco-lhes ainda mais uma observação: questionem os editais de concursos para coordenadores, diretores e supervisores quanto ao tempo e nível de experiência, para evitar que pessoas que nunca vivenciaram determinadas situações dentro de uma escola sejam admitidas em cargos hierarquicamente superiores a quem está há anos na prática escolar.

É hora de refletir se é realmente por concurso público a melhor forma de admitir novos coordenadores, diretores e supervisores de ensino, ou se não há que se pensar nessas funções em um plano de carreira para os educadores da rede municipal de ensino. A Sra. Juliana Vargas Passarini, que assumiu a coordenação pedagógica da Escola Paul Percy Harris em 2009, lá permaneceu por apenas cinco meses e a Sra. Marisa Ribeiro, que assumiu a direção, pediu remoção após cerca de 3 meses! 

Essas duas moças, recém concursadas, foram responsáveis por desencadear todo esse estrago na minha vida profissional de quase 23 anos, desmantelaram os projetos da escola Paul Harris e deram conta da demissão ou da transferência de seis funcionários nesse mesmo período, porque os mesmos não estavam satisfeitos com seus métodos e manifestaram que iriam depor em meu favor à comissão de diligência. Sem se preocuparem com a vida dessas pessoas, com a sua luta para sustentarem suas famílias, sem nenhuma compaixão, apenas ELIMINARAM as pessoas do seu caminho. Recentemente, mais duas pessoas que prestavam serviços na Escola Paul Harris também foram demitidos por serem próximas de mim. Nem o instrutor da fanfarra escapou!  Até um documento de transferência de aluno foi forjado com a alegação de que a mãe  pedira a transferência porque eu, Débora Malacario, estaria instigando o aluno a depredar a escola! E eu já estava afastada da escola a pedido da Sra. Secretária de Educação!

É interessante que a Comissão Processante tenha alegado sobre o meu gênio, quando a rede pública está tão repleta de ditadores! Eu não fui aprovada em um concurso público por causa do meu gênio. Não havia nada relacionado a isso no edital. Fui contratada pela minha competência!

Fui acusada de ter falsificado o diploma de mestrado, de ter realizado plágio (cujo processo ainda está em trâmite, não há decisão judicial a respeito disto e não devo nada aos cofres públicos por causa desse fato, pois o Processo Administrativo instaurado para investigar esse fato já foi concluído!).

Acusaram-me também de não ter prestado contas de recursos financeiros, a imprensa ligou meu nome até ao crime de pedofilia em uma de suas reportagens, e apesar de eu ter esclarecido que a questão não era comigo, não desmentiram a informação. Amanhã, pode ser que mais acusações e insinuações surjam após esta minha manifestação. Não importa o que farão comigo agora. O meu caso está nas mãos da justiça e eu acredito nela.

Mas também, quem sabe, agora eu tenha me tornado verdadeiramente livre. Talvez o castigo tenha sido um presente, pois agora, o que me impede de falar, não sendo mais uma funcionária pública e continuando a ser uma cidadã?

Mas a comunidade da Escola Paul Percy Harris perdeu a sua identidade, o projeto político-pedagógico continua se arrastando aos pedaços, migrando nas mãos de diferentes gestores ano após ano, os educadores estão desiludidos, os adolescentes continuam praticando atividade física no velho espaço que vergonhosamente denominaram, em projeto, como MINIQUADRA POLIESPORTIVA, se é que algum engenheiro ou arquiteto possa me convencer, como educadora física, da possibilidade de existir uma miniquadra poliesportiva, dadas as dimensões das linhas limítrofes de cada modalidade esportiva...

A todos os cidadãos riopretenses, aos educadores e jornalistas que me ouvirem e aos senhores políticos, dirijo-me emprestando as palavras de Elie Wiesel, prêmio nobel da paz em 1986: 

A indiferença e a falta de ação tornaram-se aliados da maldade. (...) O que é a indiferença? (...) Existe uma filosofia concebível de indiferença? (...) é necessário, às vezes, praticá-la simplesmente para manter a sanidade, viver normalmente, aproveitar uma boa refeição e uma taça de vinho, enquanto o mundo ao redor de nós está experimentando revoltas angustiantes? (...) É claro que a indiferença pode ser tentadora – mais do que isso, sedutora. É muito mais fácil (...) evitar as tão rudes interrupções  a nosso trabalho, a nossos sonhos, a nossas esperanças. É estranho estar envolvido na dor e no desespero de outras pessoas (...) A pessoa que é indiferente reduz o outro a uma abstração. (...) ser indiferente é o que faz o humano ser desumano. (...) a indiferença é sempre amiga do inimigo, já que beneficia o ‘malfeitor’ – nunca a sua vítima, cuja dor é aumentada quando ela se sente esquecida. Não responder à sua situação, não aliviá-la por meio do oferecimento de um brilho de esperança é exilá-la da memória humana. E, ao negar a humanidade dessas pessoas, nós traímos a nossa. A indiferença, para Elie Wiesel, não é somente um pecado, é uma punição.

Então, chegou a hora de haver uma intervenção, como um aviso para que não mais aconteçam situações de assédio moral aos servidores deste município, e que não ocorra mais a reação de indiferença da sociedade no que diz respeito à educação pública.

Não é para o caso da professora Débora Malacario que venho lhes pedir sensibilidade, envolvimento e comprometimento. É para a comunidade do Parque da Cidadania, é para o povo da periferia, para aqueles que frequentam a Escola Paul Harris, como um exemplo da situação da maioria das escolas municipais. Senhores empresários, como poderemos manter o status de desenvolvimento desta cidade, como a economia riopretense avançará com gerações despreparadas, oriundas dessas escolas abandonadas, desequipadas, com educadores desestimulados pelas péssimas condições de trabalho?

Quem foi punido com mais severidade? A professora Débora? Ou os adolescentes do Parque da Cidadania, que tiveram a sua escola desmantelada, e a comunidade, que tem sido negligenciada anos após ano, com a troca de equipes e a falta de continuidade dos projetos?

Nós, que escolhemos a profissão de educadores e vocês, que escolheram a vida pública, NÃO podemos nos dar o direito de praticarmos a filosofia da indiferença!

É o que eu tinha a dizer. Muito obrigada!

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